segunda-feira, 5 de abril de 2010

COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ de KARINA DIAS e DIEDRA ROIZ

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PARA Versão impressa (livro): 
PARA Versão digital (ebook): 

Romance escrito em parceria por Diedra Roiz e Karina Dias.
Alison POV por Karina Dias
Pamela POV por Diedra Roiz
Postado pela primeira vez de Abril a Agosto de 2008.



SINOPSE: 
Uma chefe linha dura e uma assistente ousada, essa é a fórmula que dá o tom na comédia romântica escrita por Diedra Roiz e Karina Dias. 
Tudo começa quando Alisson e Pamela descobrem que foram traídas dentro de uma boate no Rio de Janeiro. Depois de uma madrugada regada a boa conversa e bebida na Lagoa Rodrigo de Freitas, as mulheres imaginaram que aquele havia sido o primeiro e o último encontro, no entanto, o destino resolve uni-las novamente e o reencontro inesperado mudará a vida delas para sempre. Pamela, a chefe mais temida e sedutora da comunicação brasileira desenha um cenário de guerra com Alisson, recém-contratada que em nada lembra os funcionários amedrontados e submissos da revista “Gente Chique”. 
A trama recheada de sensualidade, intrigas, reviravoltas e humor é a mistura perfeita para quem quer se deliciar com leitura de uma das melhores histórias da literatura lésbica da atualidade.

MÚSICAS QUE INSPIRARAM A HISTÓRIA:

PLAYLIST COMPLETA NO YOUTUBE:






  • OBS IMPORTANTE: 

    A história não está completa, disponibilizamos apenas os três primeiros capítulos para degustação. 


    Capítulo 1


    Allison POV
    Era sábado à noite. A boate estava lotada. O som e as pessoas a todo vapor. Não curto muito lugares héteros, mas a minha namorada havia insistido, sendo assustadoramente chata para que eu a acompanhasse. Bom, ela queria muito encontrar o grupinho da faculdade, e eu não podia ser estraga prazeres, não é? Fiz um esforço quase sobre-humano e fui.
    Lagoa, Rio de Janeiro, meia-noite e quarenta e cinco. Tenho que admitir: o lugar era incrível! Não deixava a desejar para nenhuma boate LGBT superbadalada.
    Logo na entrada, víamos a decoração estilo medieval: dois homens com uma armadura prata nos receberam, eles cruzaram as espadas no alto das nossas cabeças como se estivessem nos dando um título por entrarmos ali. Depois da portaria, havia um ambiente à meia-luz. A pista de dança mais à frente, centralizada. Ao redor dela, mesas decoradas com pedras. Pareciam pedras de cachoeira. Encostados nas paredes, sofás de madeira acolchoados com almofadas que pareciam folhas. Havia uma escada que levava ao segundo andar, mas nós ficamos por ali mesmo. Jéssica, minha namorada, era toda sorrisos. Nos sentamos em uma mesa próxima ao bar onde estavam os amigos dela e ela me apresentou a eles como uma prima. Não me surpreendi, tendo em vista que nem a família e nem os amigos dela sabiam da sua orientação sexual. Não concordo muito com essa história de não se assumir, mas eu gostava daquela garota e acreditava que, quando firmasse mais o nosso namoro, ela tomaria coragem para contar.
    No meu caso, a maioria dos meus amigos eram homossexuais e a minha família me aceitava sem preconceitos.
    Namorávamos fazia três meses, e aquela era a terceira vez que eu a acompanhava em lugares héteros. Teríamos que negociar, não é mesmo?
    Jéssica nunca havia me acompanhado nos encontros com os meus amigos. Sempre utilizava as mesmas desculpas: “não vou me sentir bem”; “E se alguém me vir?”; “Meus pais, meus amigos... Como vão encarar isso?”. Eu estava apaixonada e cedia sempre, um erro, eu sei. Mas vai dizer isso para uma pessoa apaixonada.
    Pedi uma cerveja enquanto fui apresentada a duas amigas e a um amigo de Jéssica. Era desconfortável, sabe? Não sei como minha namorada conseguia dizer tantas mentiras a nosso respeito em tão curto espaço tempo.
    Até um namorado que estava em Londres ela disse que eu tinha, pode isso?
    No decorrer da noite, as coisas foram piorando. As amigas de Jéssica começaram a comentar sobre os carinhas gostosos que havia na boate, e eu, muito sem graça, concordava com aquela falta de bom gosto. Desconversava e pedia mais uma cerveja – ao menos estavam geladas.
    Quando passou das duas da manhã, eu comecei a olhar o relógio de cinco em cinco minutos. Queria ir embora, mas Jéssica não dava sinais de que iria tão cedo. Continuei paciente. Pedi mais uma cerveja, seguida de outra e outra e outra. Sorri para os amigos dela, falei do meu namorado fictício que estava com uma doença grave e havia viajado para Londres na esperança de um tratamento revolucionário. O ruim da mentira é quando você se entrega a ela, a ponto de acreditar nela. Sabe que eu até chorei falando da doença do cara?
    Não demorou para que eu percebesse que precisava de ar. Quando Jéssica se levantou e disse que iria ao banheiro, vi uma luz no fim do túnel, sabe? Esperei alguns minutos, depois fui atrás dela para tentar convencê--la de que seria melhor irmos embora. Passei pelo bar. Me espremi entre as pessoas que estavam vendo a movimentação na pista de dança, passei pelo imenso corredor e olhei a placa que indicava o caminho dos banheiros.
    Enxuguei o suor da testa. As luzes daquele corredor se alternavam em verdes e vermelhas, por isso tive que parar e olhar de novo. Sabe quando você não acredita no que vê? Pois é! Esfreguei as mãos em meus olhos, no mesmo instante em que tomei um esbarrão de uma louca que passou na minha frente como um furacão. Não consegui olhar para ela, sequer me importei com o esbarrão que me jogou para o lado e quase me fez cair em cima de algumas pessoas que estavam paradas. O que doeu mesmo foi ver Jéssica encostada na parede, no maior amasso com um cara. Foi no mínimo nojento, sabe? Deu vontade de vomitar. O que eu fiz? Um escândalo? Não! Não sou disso.
    – Calma Allison! – disse para mim mesma. – Calma Allison! – repeti, respirei fundo enquanto passava as mãos pelos meus cabelos. Nervosa e decepcionada, não permiti que Jéssica me visse daquele jeito. Dei meia volta e subi as escadas que levavam ao terraço da boate. Estava tocando uma música suave, que acalmou o meu coração momentaneamente. Aproximei-me da grade. Olhei a Lagoa embaixo. Era uma visão linda, pena que o meu humor estava tão feio. Olhei instantaneamente à minha direita e vi uma mulher chorando quase silenciosamente com as mãos agarradas na grade.
    Sei lá o que me deu, mas eu parei ao lado dela.
    – Noite difícil? – perguntei intrometida.
    – Que nada! A noite está maravilhosa para quem surpreendeu o namorado aos beijos com outra – respondeu enxugando as lágrimas.
    Sorri achando graça do tom irônico dela.
    – Uau! – virei-me de frente para a mulher, que tentava esconder as lágrimas – Pensei que só o meu namorado fosse canalha.
    – Não... Vai dizer que... Também... Surpreendeu o seu... Com... – virou-se de frente para mim. Quase me perdi naquele olhar imponente. Os olhos dela eram tão azuis que doíam a minha vista só de olhar para eles.
    – Sim! – sorri ou, melhor, tentei sorrir. “Ela estava nos braços de outro”, pensei. – Ele estava nos braços de outra – disse.
    – Que raiva! Eles lá com outras e nós duas aqui, nos lamentando.
    – Posso te oferecer uma bebida?
    – Quero ir para bem longe desse lugar – respondeu.
    Inclinei a cabeça, como se apontasse a Lagoa embaixo de nós.
    – Vamos descer? – sugeri.
    – Boa ideia! – sorriu. Ela não tinha um sorriso habitual, era um sorriso que mostrava força, embora eu a tivesse visto com lágrimas nos olhos.
    Não me despedi de Jéssica, muito menos dos amigos dela. Saímos da boate pelos fundos. Paramos em um quiosque da Lagoa, ao fundo dava para ver o Cristo. No início, o assunto girou em torno dos nossos “namorados” imbecis, mas, depois de alguns chopes, falamos sobre casualidades.
    E, quando nos demos conta, muito tempo havia passado. O sol nascia no horizonte e nos proporcionou um espetáculo maravilhoso. Nos despedimos sem trocar telefones, sem ao menos dizer o nome uma para a outra. O gostoso daquele encontro havia sido justamente isso. Éramos duas desconhecidas que jamais voltariam a se encontrar.
    Fui para a casa, precisava colocar a cabeça em ordem. Segunda-feira eu iria começar em um novo emprego. Estava ansiosa e temerosa. Ansiosa por ser o meu primeiro trabalho depois que havia terminado a faculdade de Publicidade, e temerosa porque o meu amigo Leonardo tinha prevenido de que a nossa chefinha era nada mais, nada menos do que uma cascavel, e eu sabia que precisaria de muita sorte. Inclusive, foi ele quem levou o meu currículo para a redação onde trabalhava.
    Perdi as contas das vezes em que rejeitei as ligações de Jéssica. Ainda bem que eu dividia o apartamento com o Léo, que também é gay, porque quando Jéssica apareceu na nossa porta, na manhã de domingo, foi ele quem disse que eu não estava. Ela insistiu que queria me esperar para conversarmos, mas o meu amigo logo deu um jeito de despachá-la. Léo era muito bom nisso. Disse que estava esperando um carinha e Jéssica, que era tudo – principalmente uma piranha – menos burra, notou que três era demais.
    Eu menti porque não conseguiria olhar na cara dela. Queria esperar a raiva passar, para então termos a conversa final sem os ânimos exaltados.
    Confesso que ia ser difícil, eu gostava muito daquela filha da mãe. Meu estado de espírito estava péssimo! O seu também estaria, tendo em vista que naqueles três meses de namoro, praticamente abrira mão de todas as coisas que eu mais gostava por ela. E o que recebi em troca? Você já sabe.
    – Valeu, Léo! – disse parada próximo à porta da sala. – Não ia conseguir falar com essa vadia agora. Preciso esfriar a cabeça.
    – Vai descansar, amiga! – Pôs as mãos nos meus ombros. – Precisa se recompor porque amanhã você terá um encontro com a toda poderosa da revista, viu? Evite olhar muito pra ela... 
    – “Não faça perguntas, limite-se a responder as perguntas dela e em hipótese alguma elogie o trabalho da concorrência” – disse e sorri. Léo tinha repetido aquelas recomendações a semana inteira, mesmo antes de me ligarem dizendo que a vaga era minha. Para ser sincera, nem sabia se a vaga era mesmo minha, ainda tinha que passar pela aprovação da cascavel. Pelo que havia entendido, se ela não fosse com a minha cara, iria me despedir antes mesmo de assinar o meu contrato.


    Pamela POV
    A segunda-feira chegou rápido. E com ela minha face mais mal humorada. Assim que entrei na revista, Arlete – minha secretária – pegou a minha pasta e veio quase correndo atrás de mim. É, eu ando rápido, batendo no chão com força com os saltos altos. Isso cria o efeito ameaçador desejado.
    Sentei atrás da minha mesa, onde pilhas de papéis já me esperavam. Guardei os óculos escuros, olhei para a caixa de e-mails – o Mac já estava ligado. Arlete era eficiente – senão, não continuaria trabalhando comigo –, trouxe café, água e o currículo da nova funcionária.
    – Manda ela entrar.
    Queria acabar logo com aquilo. Achava aquelas entrevistas – exigência da empresa – totalmente desnecessárias. Todos os novatos recém-saídos da faculdade eram iguais: cansativos, chatos, nervosos, deslumbrados. Essa não devia ser diferente, claro. Arlete abriu a porta e pediu para a moça que aguardava na sala de espera entrar. Fui totalmente pega de surpresa quando a menina entrou na sala. Ela também me olhou com uma expressão que foi absolutamente perplexa. Ficou boquiaberta.
    Imediatamente voltei no tempo, meus pensamentos ficaram perdidos no silêncio que ficou entre nós.


    Sábado à noite. Boate lotada. Se o lugar era bonito? Mesmo que fosse lindo. Isso era o que menos me interessava. Odeio boates. Detesto ter que gritar para conseguir ser ouvida. Prefiro mil vezes uma conversa inteligente e espirituosa num barzinho. Mas o Fábio adorava e me convenceu. Afinal de contas, ele merecia, coitado. Eu andava trabalhando feito louca, quase não tinha tempo para ele que, apesar de tudo, se mantinha – como sempre tinha sido durante os quase oito meses que a gente namorava – maravilhosamente atencioso, carinhoso, ardente e gentil.
    O Fábio era um daqueles caras que curte esportes radicais. Graças a isso, tinha um corpo simplesmente incrível. Esse era um dos pontos chaves da nossa relação porque, tenho que confessar: ele era pouco burrinho, mas gostoso demais. O cara não precisava ser um Einstein pra dar o que uma escorpiana como eu mais prezava: sexo, muito sexo. Bem feito e selvagem. Com um Apolo daqueles, totalmente insaciável, eu estava muito bem servida, obrigada.
    Passamos no meio de inúmeras pessoas. A maioria caçando, enlouquecida. Éramos um casal no mínimo bonito. Impossível passar sem sermos devorados por aquela tribo. Àquela altura, já era impossível conseguir uma mesa. Fábio foi até o bar e aí... Tá, confesso que dei umas olhadinhas, avaliando o material que se oferecia. Também, era como entrar num açougue: a carne estava lá, exposta e disponível. Bastava estender a mão e se servir. Picanha e Galinha. Aliás, diga-se de passagem, galinha – independente do gênero – era o que não faltava.
    E depois as pessoas criticavam as prostitutas nas vitrines na “Red Line” em Amsterdam. Pura hipocrisia.
    Quando Fábio voltou, com uma Marguerita pra mim – não bebo cerveja – e uma cerveja pra ele – é só o que ele bebe – ficamos nos embebedando entre muitos beijos e amassos.
    Então, ele disse que ia ao banheiro. E eu acabei indo logo atrás. Não que eu seja ciumenta, ou de correr atrás. Pelo contrário. Mas por sorte ou azar – quem pode dizer? – também fiquei com vontade. Qual não foi a minha surpresa ao ver o Fábio – o meu Fábio! – aos beijos com uma menina que ele estava simplesmente encoxando na parede.
    – Calma, Pamela! – pensei.
    Me virei, meio perdida, a vista turva pelas lágrimas – de raiva! – que sem querer escorriam. Dando um esbarrão numa idiota que devia estar drogada porque estava no meio do corredor paralisada, com um olhar estranho e perdido. Empurrei a menina com tanta força que ela caiu por cima de outras pessoas que estavam próximas. Nem pedi desculpas. Naquele momento, queria dizer para o mundo inteiro: exploda-se!
    Subi as escadas que levavam ao terraço da boate. Uma música suave começou a tocar. E pude ouvir como meu coração batia alto. Um verdadeiro bate estaca. Me aproximei da grade e olhei a Lagoa lá embaixo. Do Rio de Janeiro inteiro, era o lugar de que eu mais gostava. Pena que naquele momento, a beleza da vista só tornava o gosto das lágrimas que molhavam meu rosto ainda mais amargas.
    Uma garota parou ao meu lado. Minha primeira vontade foi enxotar a intrometida. Mas ela me olhou de um jeito meigo que me desarmou:
    – Noite difícil?
    Meu humor peculiar, ácido e sarcástico, veio rápido:
    – Que nada! A noite tá maravilhosa para quem surpreendeu o namorado aos beijos com outra.
    – Uau! – Ela se virou para mim. – Pensei que só o meu namorado fosse canalha!
    Coincidência. Coincidências não existem. Na verdade, tudo tem um motivo bem palpável. Apenas não percebemos logo de cara. Mas confesso que aquilo me pegou totalmente de surpresa:
    – Não... Vai dizer que... Também... Surpreendeu o seu... Com...
    Virei de frente para ela, que me olhou de um jeito estranho, diferente. Senti um arrepio, apesar da noite estar agradável, impossível eu estar com frio.
    Trocamos algumas palavras, até que ela sugeriu:
    – Vamos descer?
    Inclinou a cabeça, apontando a Lagoa lá embaixo. Meu lugar preferido, lembram? Irrecusável!
    Sorri, achando engraçado, porque em qualquer outra circunstância eu teria simplesmente me livrado dela o mais rápido possível. Afinal de contas, ela tinha me surpreendido vergonhosamente com lágrimas nos olhos.
    Fomos pra um quiosque da Lagoa, de onde se via o Cristo, uma das novas sete maravilhas do mundo. Braços abertos pro mundo inteiro, testemunha silenciosa de tantas decepções amorosas. Naquele momento, das nossas.
    No começo conversamos sobre os namorados. Achei engraçado porque de vez em quando ela se enrolava, trocava os pronomes: ela ou dela ao invés de ele ou dele. Devia estar bêbada já.
    Depois de alguns chopes, começamos realmente a conversar. Nem vi o tempo passar. Ela era muito divertida, inteligente, simpática. Surpreendentemente boa de papo pra quem parecia tão novinha, uma adolescente quase. Aparentava ter uns 20 anos – não sei se era assim tão nova, muitas vezes a aparência não combina com a verdadeira idade.
    O sol nasceu. Um espetáculo à parte. Nos despedimos. Eu estava morta de cansaço. Depois dos trinta – e eu tinha virado o Cabo da Boa Esperança há mais de cinco anos já –, virar a noite não é assim tão fácil.
    Não trocamos telefones nem nomes. Pra quê? Com certeza, a última coisa que eu precisava era reencontrar a única a presenciar aquela noite lamentável.
    Quando cheguei em casa, desliguei o telefone, coloquei o celular para vibrar e avisei ao porteiro para dizer que eu não estava. Tomei um banho quente, quase fervendo, como eu gostava. Me joguei na cama e juntou tudo: depressão, sono atrasado, vontade de não voltar a acordar. Dormi até quase cinco horas da tarde. No celular, milhares de chamadas não atendidas, todas do Fábio. E umas cinco mensagens, que apaguei sem ler. Liguei o Mac, mais mensagens do canalha. Bloqueei, deletei ele de todas as minhas redes sociais sem pena, remorso, dúvida nem nada. A partir daquele momento, da minha vida ele já não fazia parte.


    Voltei ao momento presente. E, ao contrário dela, eu sabia muito bem disfarçar meus sentimentos. Não ia dar chance para que ela pensasse que teria algum tipo de privilégio ou tratamento diferenciado só porque tinha me visto num momento de fraqueza. Mandei ela se sentar. Obedeceu, imediatamente. A cadeira na minha frente era propositalmente daquele tipo que a pessoa afunda e fica alguns centímetros mais baixa. Me deixava muito mais imponente, e a pobre coitada muito mais vulnerável. Disse, como se não a conhecesse – e não conhecia mesmo – olhando para o currículo na minha mão:
    – Allison? Seu nome é esse?
    Ela concordou. Queria o mais rápido possível colocar a menina no seu devido lugar:
    – Horrível. A menos que isso aqui fosse um conjunto musical.
    Deixei a piadinha no ar. Ela não entendeu, lógico. Era proposital. Expliquei, esbanjando superioridade:
    – Você poderia testar o microfone assim: “Som! Allison!”
    Ri de pura maldade. Vocês precisavam ver a cara que ela fez. Óbvio que não tinha gostado. Mas era esperta. Não respondeu à provocação. Continuei:
    – Vamos fazer o seguinte: aqui dentro seu nome vai ser Ali. É muito melhor. Bem menos suburbano, não acha?


    Allison POV
    Quando eu entrei naquela sala e olhei aquela mulher à minha frente, o meu estômago pareceu revirar por dentro. Era coincidência demais! A chefona e a mulher da Boate eram a mesma pessoa. Aquele olhar de superioridade em nada lembrava a pessoa que havia passado horas comigo, sentada num quiosque à beira da Lagoa. Como Léo já havia me dito, ela era perversa, cruel... Mas, extremamente linda! O “linda” ficou por minha conta, viu? Já sentiu vontade de sair correndo de um lugar simplesmente por não saber onde está? Deixa eu ser mais clara: eu perdi a noção de onde estava e o que eu tinha ido fazer ali. O chão parecia ter saído de debaixo dos meus pés por dolorosos minutos, os minutos de silêncio que ela me olhou, sem nada dizer e sem exibir nenhuma expressão amigável. Eu estava completamente desconcertada diante daquele olhar reprovador, e fiquei ainda mais sem saber onde enfiar a minha cara diante das agressões verbais desnecessárias, afinal de contas, o que eu tinha feito de errado? Nem abrira a minha boca, oras! Por que ela simplesmente não me mandava sair da sala? Era só dizer que a vaga não seria minha, não é? O que ela queria com aquelas provocações sem sentido?
    – Olha... – Engoli em seco. – Gosto de Ali. O trabalho é meu ou eu ainda tenho que ouvir mais uma das suas piadinhas? – disse num impulso. – Submeter os candidatos ao ridículo faz parte do processo de seleção? – continuei movida pelo impulso que naquele momento me dava uma coragem extraordinária. O problema é que a coragem foi embora quando aquela mulher toda me olhou revoltada com a minha ousadia ou sinceridade, ao meu ver.
    – Olha aqui, menina! – ergueu o corpo e bateu a mão na mesa, no mesmo tempo em que um senhor de cabelos grisalhos entrou na sala. Fiquei olhando-o, quase fazendo um pedido a ele: “Tio, me tira daqui!”, pensei enquanto olhava a mulher exuberante e má dar a volta na mesa e, gentilmente, ir de encontro a ele. Eu parecia não existir para os dois, até que o senhor me olhou por um momento e sorriu para mim. Encolhi-me na cadeira, embora tenha achado o sorriso dele gentil.
    – Você é a nossa nova funcionária? – Estendeu-me a mão direita para um cumprimento, logo fiquei de pé e apertei a mão dele.
    – Senhor... – fitei-o como quem quer descobrir o nome.
    – Álvaro – respondeu com tom de voz amigável.
    – Prazer, senhor Álvaro. – Tentei respirar antes de continuar a falar, pois a megera, digo, mulher estava me olhando como quem quer voar no meu pescoço por tamanha petulância. – Ainda não sei se farei parte do quadro de funcionários dessa empresa, embora eu queira muito, não sei se... Passarei desta entrevista – fitei-a de rabo de olho.
    O homem pegou o meu currículo nas mãos e olhou com cuidado. A cascavel, como Léo a chamava, estava de braços cruzados, olhava-o com um ponto de interrogação na testa.
    – Você tem um bom currículo, Allison – disse e sorriu – A Pamela sabe enxergar um talento quando vê um. Tenho certeza que a minha filha saberá avaliar você como merece.
    Fiquei quase sem palavras, afinal de contas, como um homem que aparentava ser tão gentil pôde pôr no mundo uma mulher tão... tão... Linda? Não! Eu quis dizer sem noção! Aquela tal de Pamela era sem coração, o tipo de pessoa que se delicia ao abusar do poder. Será que na cama ela também abusava daquele jeito? Foi duro segurar o meu sorriso depois daquele pensamento infeliz, sabia? Pior ainda foi disfarçar o meu olhar na direção das pernas dela. Era um absurdo! Ela tinha acabado de me destratar e os meus olhos não paravam quietos, iam das pernas dela para os lábios, desciam pelo decote...
    Depois que o pai dela saiu da sala, Pamela.vibora.com.br sequer olhou em minha cara, apenas pegou no telefone. Discou um ramal e disse:
    – Peça ao Leonardo para vir aqui e levar a nova funcionária para conhecer as instalações da revista.
    Soltei o ar que parecia preso em meus pulmões, tamanha era a minha apreensão diante daquela mulher.
    – Obrigada – disse, tomando cuidado para não me aprofundar naquele olhar frio.
    – Pode esperar lá fora – respondeu sem desviar os olhos da tela do computador. – O funcionário que virá já sabe o que tem que fazer com você. – Sem comentar nada, caminhei em direção à porta. Girei a maçaneta... – Ali – chamou-me. Virei de frente para ela, percebi que, mesmo assim, a mulher não desviava os olhos da tela à sua frente. – Nós nunca nos vimos antes desse momento, está bem?
    – Mas... – “Essa é a primeira vez que estou vendo a senhora”, pensei um instante. – Não me lembro mesmo de nenhum outro encontro – disse irônica.
    – Muito bom! Feche a porta!
    Encostei-me na porta após fechá-la, mas não tive nem tempo de digerir a situação, Léo pegou-me pelo braço e me levou para um canto, próximo à uma enorme janela.
    – Como foi? – quis saber.
    – Horrível!
    – Eu não falei? Ela é uma cascavel – disse baixinho. – Vem! Tenho que te mostrar as dependências. – Sorriu enquanto caminhávamos por um imenso corredor, cheio de portas de vidro que levavam a outras salas.
    – Léo! – Balancei a cabeça negativamente, enquanto tentava raciocinar a respeito do que havia acontecido. De sábado até aquela manhã, a minha vida estava cheia de surpresas, e posso garantir que todas eram péssimas.
    – O que foi? – passou as mãos pelo meu ombro – Você se acostuma com a Dona Pamela, Ali! Vem cá... – Apontou uma porta. – Essa é a minha sala.

    Nós entramos e, como em um pesadelo, vimos Jéssica sentada na cadeira de Léo. A safada conversava animadamente com um dos funcionários da revista que, pelo que indicava no crachá, era um dos editores. O rapaz desencostou-se da mesa quando nos viu entrar. Logo se despediu de Jéssica e cumprimentou Léo ao passar por nós. Respirei fundo. Tudo o que eu não queria era ver aquela... pir... sem vergonha na minha frente. Não podia ficar pior, não é?
    – Como você entrou aqui, menina? – antecipou-se Léo.
    – Eu precisava falar de qualquer jeito com você, Allison! – disse com cara de cachorro sem dono, enquanto caminhava na minha direção. – Foi fácil entrar aqui, o editor que acabou de sair é amigo do meu irmão.
    – Olha só, garota! – continuei impaciente – É o meu primeiro dia de trabalho. Tá sendo difícil, viu? Vê se vai embora e...
    Antes que eu pudesse completar a frase, olhamos para trás e vimos uma figura imponente parada na entrada da porta. Completamente estática, olhava para Jéssica como um inimigo de guerra deve olhar para o outro quando se encontram frente à frente num campo de batalha.
    – O que essa mulherzinha está fazendo aqui na minha revista? – O tom de voz era grave, firme. De dar medo.
    – Quem você tá chamando de mulherzinha?
    – Ãhn? – dissemos eu e Léo ao mesmo tempo e demos de ombro.
    – Mulherzinha sim! Das bem baixo nível, que fica agarrada a qualquer um em boates lotadas – disse num impulso. Depois, olhou para nós um pouco desconcertada, talvez arrependida pelo desabafo.
    – Do que você está falando? Eu não vim aqui para ser ofendida. Vim para me entender com a minha namorada!
    Namorada? Até o final de semana ela tinha medo de falar “lésbica” em voz alta. Coloquei as mãos na cabeça assim que Jéssica terminou a frase. Eu havia pensado que a coisa não podia ficar pior, não é? Além de ter me corneado, queria que eu perdesse o emprego que eu ainda nem tinha conseguido.
    – Como... Como assim? – Pamela parecia não ter ouvido direito.
    Corri e tapei a boca de Jéssica. Sim! Ela devia ter batido com a cabeça! Senti os dentinhos dela abocanharem os meus dedos. Dei um grito de dor enquanto ela, aflita, segurou o meu rosto entre as mãos.
    – Allison... Agora eu sei por que você sumiu da boate no sábado. Meu amor... Eu... – gaguejou. – Eu posso explicar! Aquele homem quem me agarrou... Juro que...
    – Cala a boca, Jéssica! – Tirei as mãos dela do meu rosto. – Eu vi vocês no maior amasso na porta do banheiro! – Não consegui me segurar diante de tanto cinismo. Perdi o emprego? Foda-se! Eu precisava desabafar, estava com nó na garganta desde o ocorrido. – Acabou! Entendeu? Não quero saber quem agarrou quem! – disse e deixei a sala do Léo sem olhar para lado algum. Em passos largos eu voltei para o corredor. Estava quase alcançando a saída quando senti as mãos de alguém tocarem o meu braço. Inclinei o rosto para ver quem era e esbarrei nos olhos mais expressivos que os meus já viram na vida. Inevitavelmente, olhei para a mão dela envolta em meu braço, visivelmente vimos os pelos dele arrepiados. Tentei desviar o meu olhar dos olhos dela, mas não consegui. Quando me dei conta, estávamos novamente frente à frente dentro daquela sala gélida de Pamela.
    – Eu entendi direito? – questionou ela.
    – Menti no sábado pra você... Eu sou lésbica! – fui direta como gosto de ser.
    – A sua namorada estava beijando o meu namorado!
    – Caraca! – Soltei sem querer. – Aquele safado era o seu namorado?
    – Ex-namorado! – disse séria. – Allison, não sou mulher de ser passada para trás, e muito menos de tolerar escândalos, tanto na minha vida particular quanto dentro do meu local de trabalho.
    – Já sei que eu estou despedida.
    – Não... Você não sabe! – fitou-me com aquele olhar de quem intimida qualquer um – Não vou te despedir, só não quero que você me crie problemas, entendeu?
    – Entendi! – disse surpresa. Ela não iria me despedir?
    – Então... Pode ir – falou completamente inexpressiva.
    Não disse mais nada. Tranquei a porta novamente. O ar me faltava. Nem nos meus piores pesadelos tinha imaginado passar por tamanha saia justa. Que vontade eu estava de esganar a Jéssica! E que surpresa saber que a toda poderosa fora trocada por uma suburbana. Sorri daquele pensamento. Se existiu um lado bom na sacanagem da minha ex, pode apostar que havia sido esse.

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    Capítulo 2


    Pamela POV
    Quando aquela menina fechou a porta e pude ficar sozinha com os meus pensamentos, percebi a confusão em que eles estavam. Impossível ordená-los. Minhas mãos tremiam. Me deixei cair na cadeira e tentei repassar os milhares de acontecimentos bizarros em tão pouco tempo. Como se não bastasse a garota com currículo impecável ser a mesma com quem eu tinha dividido minha humilhação na boate, ela era namorada da biscate que estava aos amassos com o Fábio. Aí sim comecei a finalmente processar as informações. Os erros dela, trocando os pronomes, o jeito descarado que tinha olhado para as minhas pernas e que tinha – tinha sim, de forma inegável – se arrepiado quando a segurei pelo braço.
    Allison... Tudo nela, a começar pelo nome, era abominável. Menos uma coisa – essa era absolutamente surpreendente, admirável, eu diria até invejável: não era qualquer pessoa que tinha a coragem e a capacidade necessárias para me olhar nos olhos como ela olhava.
    Por que a tinha contratado? Não estava disposta a perder o que poderia vir a ser a melhor das minhas funcionárias. Ela prometia, isso pra mim era claro. Mas também estava começando a perceber que havia alguma coisa nela – eu ainda não conseguia definir o que, para ser exata – que me instigava. Não era um interesse nela como mulher, nem como pessoa. Isso pouco me importava. Como meu pai mesmo tinha dito, eu tinha um olho clínico para talentos. E de cara tinha enxergado nela algo muito além do esperado. Se ela não fosse desperdiçada. Ou seja: se fosse bem treinada. Por mim, é lógico. Uma coisa da qual eu não abria mão – na verdade, eu adorava – era um bom desafio. E eu pressentia que Ali... Nossa, realmente, muito melhor Ali... Soa gostoso, quase se desmancha na boca... Doce... Melado... Como uma... Bala?
    Não tive como deixar de soltar uma risada... Antes de completar meu pensamento: eu pressentia que Ali poderia ser uma diversão à parte, se as cordas certas fossem puxadas.
    Chamei Arlete pelo telefone interno.
    – Pois não, dona Pamela?
    – Arlete, mande buscar as cartas dos leitores no depósito.
    Arlete pareceu surpresa. Muito surpresa, porque chegou a perguntar:
    – Todas? São caixas e caixas.
    “Quanto mais, melhor” foi o que pensei, me deliciando. Disse, saboreando mais ainda:
    – Todas. Empilha tudo em volta da mesa da novata. Diz que é para ela ler e selecionar as dez melhores para serem publicadas. Até o fechamento da revista na quarta. Entendido?
    Ouvi o lápis eficiente de Arlete anotando item por item. Antes de responder:
    – Sim, dona Pamela. Algo mais?
    – Por enquanto é só.
    Estava louca pra ver a cara dela e como reagiria à minha jogada. Se minha intuição estivesse certa, ela ia aproveitar pra mostrar eficiência, é claro.
    Só voltei a ver Ali na quarta-feira. Na verdade, passei em frente à mesa dela no caminho pra sala de reuniões.
    Ela estava sentada, examinando alguns papéis. Nem sinal das caixas. Se ela tinha feito hora extra, levado trabalho pra casa ou enrolado, ainda não era possível saber. Pelo menos, tinha se virado pra fazer exatamente o que eu tinha mandado.
    Quando percebeu a minha presença, ela levantou os olhos, me olhou com aquele jeito profundo, tão direto que chegava a ser abusado, e sorriu.
    Não sorri de volta. Pelo contrário, virei a cara. Ainda ia colocar essa menina em seu devido lugar!
    A reunião foi enfadonha, como sempre. Realmente, o que a “Gente Chique” precisava era de novos talentos. Não aquele bando de abobalhados, apavorados, tremendo e arregalando os olhos a cada movimento meu. Menos Ali. Ela me observava atentamente. Quase sem piscar. De boca aberta, parecia não acreditar.
    Perguntei pelas cartas. O editor tentou responder, mas o cortei:
    – Quero que a Ali responda.
    – Ãh?
    Foi só o que ela conseguiu dizer no começo. Pega totalmente de surpresa, lógico. Já devia ter sido instruída para não abrir a boca na reunião. E, de fato, seria o certo, mas... Eu queria testá-la. Passado o susto, ela foi excelente. Eu diria até brilhante. Soube explicar muito bem o porquê das escolhas que tinha feito – todas absolutamente acertadas, aliás – e leu os trechos que tinha selecionado.
    Por dentro, aprovei. Mas o que falei – como se ela tivesse sido medíocre, menos do que razoável – sem nenhum entusiasmo na voz foi:
    – Ok. Porém, não vamos usar.
    Não disse mais nada. Se ela esperava elogios ou se ficou desapontada pelo esforço sem sentido, disfarçou maravilhosamente bem. Agradeceu pela oportunidade, com um sorriso. É, a menina aprendia rápido. Depois de mais meia hora de chateação, já ia encerrar a reunião quando, de repente, Ali levantou a mão. Todos a olharam assustados. Com os olhos arregalados. Foi com muita dificuldade que consegui controlar o sorriso que lutava para surgir em meus lábios. Como sempre, me contive e, com uma expressão de completo desagrado, perguntei:
    – O que é, Ali?
    Meu tom de voz – que fez os outros estremecerem – não pareceu nem de longe a ameaçar. Me olhando nos olhos – é, ela era mesmo muito abusada! – e com uma voz espantosamente firme, Ali falou:
    – Tenho uma sugestão.
    Realmente ela prometia. Minha vontade era soltar uma gargalhada. Ao invés disso, fuzilei a menina com os olhos. E disse:
    – Sugestão?
    Não era uma pergunta. Era uma constatação do absurdo da situação. Mas Ali – inacreditável!– me respondeu:
    – Eu pensei que...
    Aí sim, deixei escapar um riso debochado. E soltei:
    – Pensar? Por enquanto, aqui dentro, você não pensa. É uma ameba, um ser invertebrado. Obedece sem questionar e não fala, apenas responde o que for perguntado. Entendido?
    Dessa vez consegui fazer Ali tremer. Não de medo, mas de raiva. A voz saiu com esforço, mas bastante educada:
    – Sim, dona Pamela.
    Ela não me olhou nos olhos. Talvez se olhasse não conseguisse se manter tão controlada. Ponto pra ela, novamente.
    – Ótimo. Então podemos finalmente, encerrar.
    Levantei da cadeira e saí daquela sala com uma felicidade inexplicável.
    Na semana seguinte, mandei Arlete chamar Ali em minha sala. Se Arlete achou esquisito – e era – não disse nada. Talvez estivesse pensando que eu ia demitir a menina. Quem sabe?
    Quando ela entrou – depois de ser anunciada –, ficou parada perto da porta, como se quisesse ir embora.
    – Sente-se.
    Foi uma ordem. Que Ali imediatamente obedeceu. Nem esperei ela se acomodar – ou melhor: tentar, porque aquela era a cadeira que eu adorava, a que fazia a pessoa afundar e ficar toda torta e encolhida. Nunca me cansava daquilo, era simplesmente... Divertidíssimo! Fui logo dizendo:
    – Resolvi te dar uma chance. Dê uma olhada.
    Empurrei alguns papéis – na verdade, um contrato – na direção dela. Ali leu atentamente. Parecia sem palavras. Tentei analisar a reação dela, mas não consegui. Perguntei:
    – E então? O que acha?
    Ela ainda demorou um pouco a responder. Parecia não estar entendendo direito:
    – Você... A senhora, quer dizer... Tá me oferecendo o cargo do Léo?
    – Exatamente.
    – Por quê?
    Os olhos dela mergulharam nos meus. Com uma estranha, doce intimidade. Que fez o tom da minha voz se tornar quase suave:
    – Você é melhor do que ele, Ali.
    Sem quebrar o contato hipnótico dos olhos, ela insistiu:
    – E o que acontece com o Léo, se eu aceitar?
    – É demitido, claro.
    Ali passou a mão no rosto. Não como se estivesse num impasse. Como se não acreditasse. Sacudiu a cabeça negativamente, claramente me reprovando. E riu, antes de responder:
    – Não posso aceitar.
    – Por quê?
    – Tenho ética. Nunca passaria uma rasteira dessas em alguém.
    A atitude por si só já era louvável. O salário era mais do que o dobro do que ela ganhava. Fora outros benefícios e ter um cargo estável na revista. Era uma grande oportunidade. Irrecusável, se não se tratasse de Ali. Não pude deixar de abrir um sorriso. Ela me olhou sem entender nada. 
    Só eu entendia que ela tinha passado no último teste, e estava aprovada, porque além de talentosa e inteligente, a menina era confiável.
    Abri uma de minhas gavetas. Puxei de dentro dela um outro contrato. Disse, indicando os papéis que ela ainda segurava:
    – Pode jogar isso fora.
    Ali prontamente obedeceu. Entreguei o novo contrato pra ela, que passou os olhos pelas páginas e aí sim, ficou completamente sem palavras. Por alguns minutos apenas:
    – Você... Desculpe, a senhora... Quer que eu seja sua assistente?
    – Minha aprendiz, na verdade. O salário é o triplo do seu. E também o trabalho. Preciso de dedicação total.
    Ali me olhou. Dessa vez como se eu estivesse pedindo que ela me vendesse a alma. Quase isso, na verdade. Mas era irrecusável. E Ali aceitou.
    – Ótimo. Você tem até amanhã para mudar suas coisas para a sala ao lado.
    Apontei a porta interna que ligava as duas salas.
    – Pode ir.
    Ela fez que sim com a cabeça, pensativa. Me analisando, na verdade. Depois se levantou e saiu.
    Me deixando com uma sensação estranha, quase uma ansiedade.


    Allison POV
    – Cruz credo! – foi o que eu disse ao sair da sala daquela mulher. Fiquei parada, ainda no corredor, por alguns minutos. Estava tentando soltar o ar que parecia ter ficado preso nos meus pulmões. Tive a impressão de que perto de Pamela eu não conseguia sequer respirar. Passei as mãos pelos cabelos, joguei-os para trás. Sabe quando você sente uma vontade imensa de gritar? Como se ao gritar jogaria para fora um emaranhado de sentimentos, sensações, medos e até certa alegria? Pois é! Daria tudo para ter um travesseiro à mão para sufocar os meus gritos. Comecei a caminhar com a mão encostada na parede até passar pela sala de Léo, que estava parado na porta.
    – O que houve criatura? – Puxou-me pelo braço. Entramos em sua sala, em seguida Léo puxou uma cadeira e praticamente me jogou nela. – Você está pálida amor, desembucha, o que a Poderosa fez com você?
    – Cara! Eu tô de saco cheio dessa mulher! Ela é... Ela é... – Fiquei pensativa por uns instantes, como se as palavras tivessem fugido da minha cabeça – “Ela é gostosa”, pensei. – Uma víbora! – disse.
    – Isso estou careca de saber – Puxou outra cadeira e se sentou. – Foi pior do que na reunião?
    – Hoje ela tava usando um perfume mais sensual – disse num impulso, acho que esqueci que o Léo estava me ouvindo. – Eu detesto essa mulher, sabia? Ela é metida, olha pra gente com aquele ar de superioridade... – Levantei-me da cadeira completamente contrariada. – Trata os funcionários com a mesma cortesia que trataria um cão de rua! Nem acho que um cão de rua tenha que ser tratado mal, o bichinho já tá na rua, coitado... O pobre sente dor feito qualquer ser vivo – desandei a falar. Depois, fitei Léo que olhava-me atento. – Será que ela não percebe que precisa de nós? Imagina se aquela patricinha metida conseguiria levar sozinha a revista nas costas?
    – Você só quer comer a Poderosa ou está mesmo apaixonada?
    – O quê? – Parei imediatamente o meu raciocínio e coloquei as mãos na mesa dele... – Que absurdo! Tá aí uma mulher que não mexe em nada comigo, beleza?
    – Sei... Diz isso pros seus olhos, tá? – Levantou-se, deu a volta na mesa e me conduziu até a porta. – Vai trabalhar gatinha!
    – Não quero sair com ela! Muito menos estou apaixonada! – respondi, quase indignada com a acusação que ele me fez.
    Léo cruzou os braços e virou a cabeça para o lado, sinalizando para onde eu tinha que ir. Balancei a cabeça negativamente enquanto me dirigia para a sala no finalzinho do corredor. Abri a porta. Entrei...
    “Não!”, pensei enquanto levava a ponta do lápis até a minha boca. “Não posso estar desejando essa... Essa...” Respirei fundo.
    – Deusa! – sussurrei e mordi a ponta do lápis, e logo comecei a cuspir o grafite que se desmanchou na minha boca. – Droga! – resmunguei enquanto passava a mão para limpar a sujeira. – Viu? Fica pensando naquela energia negativa! – Sorri achando graça dos meus pensamentos. Arlete entrou na minha sala e ficou parada na porta me olhando.
    – Sorrindo depois de sair da sala de tortura?
    – Ãh? – desviei o olhar do desconhecido e fitei a secretária da toda poderosa.
    – Seu ramal está ocupado, e a Poderosa chefona quer você de novo na sala dela... – Sorriu irônica – Ela vai testar os seus nervos até a última gota – disse quase num sussurro. – A dona Pamela gosta de ver até onde os funcionários resistem. Se você resistir, irá ter uma carreira brilhante aqui dentro, mas se você ceder às provocações dela... Perderá o emprego, entendeu?
    – Uau! – disse parada na frente dela. – Esses conselhos são uma forma de você dizer que gosta de mim?
    – Digamos que eu fui com a sua cara.
    – Pede um cafezinho. – Sorri pra ela. – É por minha conta.
    – Engraçadinha, o café servido aqui é de graça!
    – Que bom, tenho andado dura ultimamente. – Acenei pra Arlete, que me sorriu enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, em uma negativa.
    De volta ao corredor, eu estava retornado ao matadouro, digo, à sala de tortura... Não, não! Ao covil da toda poderosa.
    “O que será que ela quer comigo novamente?”, pensei pelo caminho. “Será que ela se deu conta de que ainda não xingou os meus pais?”. Sorri no mesmo instante que abri a porta, ou seja, deu tempo da chefona perceber o meu sorriso.
    – Ganhou na loteria? – perguntou sarcástica.
    – Imagina. Bem melhor que isso. Fui chamada novamente na sua sala. – ironizei, ela ergueu uma sobrancelha, olhou-me friamente com aqueles olhos azuis que pareciam hipnotizar a gente, quer dizer, bobagem dizer que pareciam, literalmente eles nos hipnotizavam. Percebi que a piada não foi de bom tom, quer dizer, bem recebida por ela.
    Que humor estranho ela tinha, não é? A ironia tinha sido ótima.
    – Infelizmente tive que te chamar de volta. – Passou atrás da mesa... Percorreu a sala até um armário de madeira que ficava do lado direito da parede. A mobília daquela sala era impecável. Pelo que Léo me disse, cada móvel havia vindo de uma parte diferente da Europa: o armário em questão era de Portugal. A cadeira ridícula que engolia a gente foi um presente de um patrocinador italiano... “Quanta ostentação para uma sala de trabalho”, pensei enquanto aspirava o cheiro do perfume dela, sabe aquele perfume marcante que deixa rastro? Era assim o cheiro dela. Quando a malvada descia do elevador, todos na redação sabiam que ela havia chegado pelo simples fato do perfume dela se propagar como rastilho de pólvora pelos quatro cantos daquela empresa. Pamela fez suspense, abriu o armário e ficou mexendo em alguns papéis. Olhei-a de costas, foi inevitável não admirar aquelas formas bem feitas que a mulher exibia. Senti a minha calcinha molhar na hora. Que sofrimento ficar ali parada, completamente excitada só de vê-la pegando uns papéis no armário. Balancei a gola da camisa para refrescar o calor do meu corpo. Que azar! Pamela virou-se lentamente e me olhou como se soubesse exatamente o que eu estava sentido.
    “Pronto! Perdi o meu emprego”, pensei colocando as mãos dentro do bolso da calça. Disfarçando, como se ela não despertasse nada em mim.
    – Aqui está! – caminhou suavemente na minha direção, sorriu maliciosamente para mim. Fitei os lábios que ela umedeceu com a ponta da língua e tive que tirar as mãos dos bolsos, pois ela praticamente jogou uma pilha de revistas nas minhas mãos – Quero um relatório de cada uma dessas concorrentes americanas...
    Sorri achando fácil o trabalho...
    – Pode deixar – encarei-a e quase disse: “tanto drama pra tão pouco”.
    – Quero amanhã, na primeira hora! – disse, sorriu e saiu andando de volta à mesa. Não consegui absorver as palavras dela, apenas fiquei olhando-a rebolar enquanto caminhava. O telefone da Poderosa tocou e ela fez um gesto para que eu saísse da sala.
    Completamente desnorteada, retornei à minha humilde salinha de móveis baratos e nacionais. Dividi-me entre o calor que me despertava toda aquela sensualidade de Pamela e a canalhice dela ao me pedir um relatório tão descabido quanto aquele. Derramei a pilha de revistas sobre a minha mesa e comecei a analisar uma por uma.
    Folheei algumas revistas...
    “O melhor da moda”, dizia uma. “As 50 celebridades mais sexys do ano”, li em outra. Numa terceira, encontrei – e balancei a cabeça negativamente... Ela queria um relatório de quase vinte listas dos galãs mais feios... Para o dia seguinte? Era loucura!
    – Pamela é doida! – sussurrei e comecei rascunhar os malditos relatórios. Desliguei o celular. Não fui almoçar, dispensei os intervalos do café. Banheiro? Somente quando a tragédia era iminente. Pedi ao Léo que só me chamasse em caso de vida ou morte, mais morte do que vida, na verdade. Um copo de água! Passei o dia inteiro com um copo de água. Quase esqueci de respirar, viu?
    O tempo passou e eu nem percebi. Quando olhei através da janela, o sol já havia dado lugar ao negro da noite. Olhei na direção do corredor e as luzes estavam sendo apagadas pelo vigia noturno. Era tudo silêncio lá fora.
    – Meu Deus! – Estiquei as mãos para o alto, espreguicei-me. Meu corpo estava moído, mas eu tinha concluído mais da metade dos relatórios. Sabia que estar de olho na concorrência era importante, mas não achava justo o prazo que a Pamela estipulara pra mim. Ela foi cruel, não é? Sorri, achando graça da forma que eu pensava nela, afinal dizia que a mulher era cruel, em seguida lembrava das curvas do corpo dela. Fechei os olhos e me dei conta de que eu precisava urgentemente de sexo. Levantei-me de sobressalto, apanhei as revistas que faltavam ser analisadas, joguei-as de qualquer jeito na minha bolsa e saí pelo corredor vazio. Depois que desci do elevador, eu liguei para o Léo:
    – Tá onde, garoto?
    – Ressurgindo das cinzas, gata! – brincou antes de passar a localização. – Tô em um barzinho. E você? Não te vi o dia inteiro, fez algum trabalho externo?
    – Estive trancada na minha sala o dia todo, cabeção! Acabei de sair do prédio.
    – Então, vem pra cá! Estou em Ipanema, na Farme de Amoedo com o Vini. O chope tá gelado e a música tá boa! Sugestivo não acha?
    – Tudo o que eu preciso, sabia? Tá em qual bar?
    – Estamos no Bofetada, não demora!
    – Já já eu chego aí – disse e desliguei. Pedi um táxi no aplicativo. Não demorei mais do que dez minutos para chegar ao bar em que Léo estava com o namorado. Foi fácil encontrá-los, o bar era pequeno e eles estavam sentados em uma mesa de madeira perto da rua mesmo. Nos cumprimentamos e, antes mesmo de me sentar, eu ergui a mão e pedi um chope. Salivei ao ver batatas fritas na mesa, belisquei meia dúzia de uma só vez. Eu estava morrendo de fome.
    – Veio do deserto, gatinha? – perguntou Vini quando eu virei o chope de uma só vez e levantei o braço para pedir outro.
    – Vim do inferno, amigo! – respondi e, automaticamente, caímos os três em uma gargalhada.
    – A cascavel tá esfolando ela.
    – Foi gentil ao dizer esfolar, sabia, Léo? – Peguei o chope da bandeja do garçom e virei-o também. Ao terceiro copo que eu iria beber da mesma forma, Léo conteve o meu gesto.
    – Pega leve, Ali. Amanhã você levanta cedo, esqueceu?
    – Ela tá me provocando, sabia? – Bati na mesa. Balancei a cabeça negativamente e senti que o meu cérebro não estava funcionando muito bem. À minha volta tudo rodava, não sei se foi por não ter comido nem bebido nada o dia inteiro, ou pelo simples fato de eu estar estressada por ter ido duas vezes na sala da Poderosa. – Ela quer que eu faça tudo e nem me dá um prazo justo! – Fitei os dois à minha frente, completamente concentrados no que eu estava dizendo – Quer saber? Eu quero foder! – disse.
    Vini colocou a mão na boca. Léo começou a rir...
    – Amiga, você está muito estressada! – Léo chegou mais perto de mim, quase cochichando no meu ouvido. – Olha que morena gostosa ali do lado te dando mole!
    Olhei mesmo, se quer saber, mas não foi para a morena que ele falou, e sim para a loira vestida com um terninho verde que estava ao lado dela. Devia ter acabado de sair do trabalho. O curioso foi que eu pisquei os olhos duas vezes e tive a nítida impressão de que era Pamela sorrindo para mim. Num surto quase desesperado, que deixou os meus amigos sem saber o que eu faria, levantei-me cambaleando, tentando não tropeçar nos meus pés, e fui em direção à mesa delas. A loira me olhou com um ponto de interrogação na testa. Eu inclinei o corpo e aproximei os meus lábios do ouvido da mulher...
    – Estou te esperando no banheiro. Se você não for... Aceito isso como um não – disse e saí. Passei pelos meninos e pisquei para eles. Léo fez gestos dizendo que não era aquela que estava me dando mole, contudo, eu continuei andando em direção ao banheiro. Três minutos depois, a porta do reservado se abriu e a loira de terno verde entrou. Sorri ao vê-la diante de mim, mas não esperei sequer para saber o nome dela, eu estava cega de desejo. Puxei-a pela cintura enquanto buscava os seus lábios com os meus. Apoiei-a na porta para impedir a entrada de outras pessoas, enquanto minhas mãos deslizavam por baixo da sua saia. Meus lábios passaram rapidamente da sua boca para o seu pescoço... Beijando-o... Mordendo-o... Arrancando gemidos daquela mulher deliciosa que estava diante de mim. Alcancei a calcinha dela e os meus dedos ultrapassaram as laterais da peça.
    – Tô louca pra te comer, Pamela – sussurrei em seu ouvido, enquanto o meu corpo latente de tesão grudava no dela. Enfiei os meus dedos. Penetrei-a com força. Elevei a sua perna direita na altura da minha cintura para facilitar o contato. O pano da saia dela ameaçou rasgar com o movimento brusco, mas ela balançou a cabeça negativamente quando eu fiz menção de que iria parar. Continuei beijando os lábios dela e sentindo os meus dedos sendo devorados. A mulher se debateu em meus braços, arranhou os meus ombros, depois gozou com os meus dedos dentro dela.
    Abri os olhos para ver a face transformada de prazer, depois busquei os lábios dela para beijar. Suguei-os ao mesmo tempo em que procurava o azul daqueles olhos. Não encontrei. Não era Pamela. Devagar, retirei os meus dedos de dentro dela. A mulher dos olhos negros sorria para mim, mas eu não conseguia sorrir de volta. Soltei a sua perna que deslizou lentamente pelo lado do meu corpo...
    – Nossa, menina! – disse enquanto balançava a gola da camisa para tomar ar. – Sua namorada Pamela deve ser muito gostosa pra você comê-la assim. – Piscou e entregou o número do telefone que estava escrito em um guardanapo que ela prendia na mão direita. – Espero, sinceramente, que me ligue. – Ajeitou a roupa no corpo e saiu. Fiquei ainda ali, encostada na pia, completamente atordoada.

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